
A versão 1.2 do nosso Manifesto Colaborativo está aberta. Ajude a redigir o documento que guiará a política de saúde estadual em 2026.

A versão 1.2 do nosso Manifesto Colaborativo está aberta. Ajude a redigir o documento que guiará a política de saúde estadual em 2026.
A doença não possui filiação partidária, não reconhece fronteiras municipais e não respeita calendários eleitorais. O colapso de uma regional de saúde afeta diretamente a sobrevida de todo o sistema. O Estado do Paraná precisa ser compreendido e gerido como um organismo biológico único e interdependente (sob a premissa de Saúde Única / One Health), onde a falência de um único órgão compromete o corpo inteiro.
Historicamente, o debate sobre a saúde pública tem sido fragmentado por interesses isolados e soluções paliativas. Chegou o momento de transcender o paroquialismo. Precisamos construir uma verdadeira política de Estado, suprapartidária, inegociável e fundamentada na ciência, na logística e na valorização da vida.
A classe médica não atua apenas como prestadora de serviços; nossa inteligência coletiva e o nosso "Associativismo Estruturado" nos colocam como arquitetos sociais do sistema de saúde. A eficiência do trabalho de cada profissional está indissociavelmente ligada à saúde do ecossistema em que ele atua.
Este não é um documento fechado. É a Versão 1.2 de um manifesto colaborativo. Convocamos todas as entidades de classe, instituições de ensino, associações, regionais de saúde, conselhos e a sociedade civil paranaense a unirem forças. Somente evoluindo do interesse individual para a responsabilidade sistêmica conseguiremos redigir o documento final que guiará as exigências da sociedade aos candidatos ao Governo e à Assembleia Legislativa em 2026.
Convidamos você a ler, debater e contribuir com os 10 Eixos Estruturais de nossa saúde:
Eixo 1: O "Caos" Estrutural e o Paradoxo do Orçamento
O Paraná aplica recordes de bilhões anualmente na saúde. O paradoxo é evidente: o volume financeiro é imenso, mas a percepção de "caos" se mantém e o médico na ponta continua em esgotamento.
Estamos assistindo à perda de leitos filantrópicos e ao fechamento de hospitais de pequeno porte no interior. Essa centralização desordenada força deslocamentos desumanos e asfixia a arquitetura dos grandes polos. O financiamento precisa seguir a jornada do paciente, substituindo a lógica do balcão político por um ecossistema logisticamente integrado.
Eixo 2: A Bomba-Relógio (Oncologia e Doenças Crônicas)
A medicina pautada unicamente em "apagar incêndios" faliu. O perfil demográfico exige um compromisso de Estado severo com a prevenção.
* Câncer e Custo: Exigimos a descentralização radical do diagnóstico. O rastreamento tem que funcionar na base antes que o paciente demande intervenções cirúrgicas mutilantes e altíssimo custo farmacológico.
* Doenças Crônicas: Na saúde pública não há espaço para ambiguidades: vape é veneno, e o sedentarismo é uma epidemia que colapsa UTIs com eventos cardiovasculares evitáveis. O Estado deve atuar contra os vetores de adoecimento.
Eixo 3: O Desafio Emergente (Saúde Pública Neurodivergente)
A emissão em massa da Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (Ciptea) expôs a ausência de uma malha estruturada de suporte. Exigimos a criação de Linhas de Cuidado Integrais no SUS, com equipes multidisciplinares. A inação do Estado na entrega dessas terapias resulta na explosão da judicialização, transferindo a gestão da saúde para os tribunais e ferindo a equidade do sistema.
Eixo 4: Inovação (A Inteligência Artificial como Exoesqueleto Cognitivo)
A complexidade dos dados de milhões de paranaenses exige uma mudança de paradigma. A IA não é um modismo; a sua capacidade de iteração e sua "imortalidade" analítica a tornam indispensável para prever surtos e otimizar fluxos.
O corpo clínico não pode mais ser tratado como mero "usuário final". Os médicos devem liderar e participar ativamente do processo decisório de aquisições tecnológicas, garantindo que a inovação sirva ao julgamento clínico, e não à burocracia.
Eixo 5: Saúde Mental (O Colapso Silencioso e o Déficit de Leitos)
A desinstitucionalização psiquiátrica foi um avanço ético, mas o Estado falhou em construir a rede substitutiva. O fechamento de hospitais especializados não foi acompanhado pela abertura de leitos psiquiátricos em hospitais gerais. Hoje, crises agudas ficam represadas em macas de corredor. Exigimos financiamento real para habilitação de leitos psiquiátricos estruturados e o fortalecimento maciço dos CAPS.
Eixo 6: UPAs (O Ponto de Ruptura e o Desvio de Função)
As UPAs tornaram-se o sintoma visível de um sistema rompido, agindo como alas permanentes de internação. O emergencista atua sob medicina de guerra, sem suporte adequado. Exigimos um pacto logístico rigoroso e o cumprimento real do fluxo de vaga zero, devolvendo à UPA sua vocação original de estabilização aguda e passagem rápida.
Eixo 7: Atenção Primária à Saúde (O Alicerce Fragilizado)
Ter um posto de saúde de portas abertas não significa ter Atenção Primária de qualidade. É na base que devemos combater as epidemias modernas, engajando a comunidade. Exigimos investimento para a fixação do profissional, garantindo a longitudinalidade do cuidado, e a implementação de um prontuário eletrônico unificado e inteligente que acompanhe a vida do cidadão.
Eixo 8: Saúde Materno-Infantil (A Base da Vida e a Urgência do Cuidado Integral)
Os indicadores de mortalidade materna e infantil são o termômetro mais sensível da eficácia de um sistema público. No Paraná, falhas na continuidade do cuidado evidenciam uma desestruturação inaceitável.
* Gestação de Alto Risco e Mortalidade: O pré-natal na APS precisa ter capacidade preditiva e retaguarda hospitalar garantida; peregrinações por leitos de UTI neonatal e obstétrica custam vidas. Nenhuma paranaense pode morrer por causas evitáveis.
* A Epidemia Oculta (ISTs): O aumento de doenças como a sífilis congênita exige estratégias ativas, despidas de tabus, focadas na educação, na testagem em massa e no tratamento imediato de parcerias.
* Planejamento Familiar: A dificuldade no acesso a métodos contraceptivos de longa duração (LARC) e a desassistência reprodutiva perpetuam vulnerabilidades. O Estado deve garantir acesso fácil e universal ao planejamento reprodutivo.
Eixo 9: Educação Médica (A Falsa Solução das Novas Escolas)
O Paraná sofre com a expansão desordenada de cursos de medicina, justificada pela falsa premissa de "levar médicos ao interior". O gargalo não é a falta de recém-formados, mas a escassez de médicos especialistas qualificados. O passo lógico e urgente é frear essa expansão e subsidiar fortemente a abertura de programas de Residência Médica nos polos macrorregionais. É a especialização que resolve os problemas reais e fixa o profissional.
Eixo 10: Envelhecimento em Saúde (A Outra Ponta da Vida)
Se o Eixo 8 trata da base da vida, este eixo trata do seu outro extremo — e o Paraná caminha para ser, nas próximas duas décadas, um dos estados mais envelhecidos do país. Tratar o envelhecimento como um capítulo à parte da "crônicidade" (Eixo 2) é um erro de diagnóstico: a pessoa idosa exige uma lógica de cuidado própria, longitudinal e multidisciplinar, que o sistema atual simplesmente não oferece.
* Formação e Força de Trabalho: Há escassez crítica de geriatras e de gerontólogos em todas as regionais de saúde. Exigimos, em conjunto com o Eixo 9, a criação e o subsídio de vagas de Residência em Geriatria nos polos macrorregionais, e a incorporação obrigatória de competências em saúde do idoso na Atenção Primária.
* Rede de Atenção à Pessoa Idosa (RAPI): É preciso estruturar de fato a linha de cuidado do idoso, integrando APS, ambulatórios especializados, hospitais-dia geriátricos e retaguarda hospitalar — hoje o idoso frágil circula pelo sistema sem um ponto de coordenação claro, repetindo internações evitáveis.
* ILPIs (Instituições de Longa Permanência): A fiscalização sanitária e assistencial das instituições de longa permanência para idosos é hoje insuficiente. Exigimos um regime de inspeção regular, com padrões mínimos de cuidado auditáveis e consequências reais para o descumprimento.
* Atenção Domiciliar e Cuidados Paliativos: Programas de atenção domiciliar têm cobertura irregular e sem verba estável. Defendemos a expansão e o financiamento contínuo desses serviços, com integração real aos cuidados paliativos, evitando internações desnecessárias e garantindo dignidade no fim da vida.
* Polifarmácia e Desprescrição: O uso simultâneo e descoordenado de múltiplos medicamentos é uma das maiores causas evitáveis de internação de idosos. Exigimos protocolos estaduais de revisão farmacológica periódica e programas ativos de desprescrição racional.
* Cuidadores Familiares e Informais: Grande parte do cuidado à pessoa idosa hoje recai, sem qualquer suporte estatal, sobre familiares. O Estado deve oferecer capacitação, suporte psicológico e políticas de respiro (respite care) para quem sustenta esse cuidado invisível.